Executivos de quatro companhias independentes discutiram durante a ROG.e 2026 como conhecimento técnico, controle de custos e novas soluções operacionais podem prolongar a produção de campos maduros no Brasil
Campos de petróleo com décadas de operação não estão necessariamente próximos do esgotamento. Uma gestão focada, aliada a investimentos e novas soluções operacionais, pode ampliar a produção e manter esses ativos economicamente viáveis por muitos anos.
Essa foi uma das principais mensagens do painel “Lições aprendidas na operação de campos maduros pelas Junior Oil Companies”, realizado nesta segunda-feira (21), durante a ROG.e 2026, no Rio de Janeiro.
O Click Petróleo e Gás acompanhou o debate no Riocentro. Conforme mostra a programação oficial da ROG.e 2026, o encontro reuniu Carlos Travassos, da Brava Energia; Jean Carlos Calvi, da PRIO; Marco Brummelhuis, da Karoon Energy; e Sergio Siqueira, da Trident Energy.
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A gerente executiva de Reservatórios da Petrobras, Maria Assunção Fontenele Soares Doria, moderou a conversa.
Independentes enxergam oportunidades onde a produção já entrou em declínio
A expansão das chamadas junior oil companies mudou parte da dinâmica do mercado brasileiro de exploração e produção de petróleo.
Essas empresas assumiram ativos que já acumulavam anos ou décadas de operação. Com estruturas direcionadas a determinados projetos, elas passaram a revisar reservatórios, instalações, custos e oportunidades de intervenção.
Campos maduros exigem uma estratégia diferente daquela usada durante o desenvolvimento inicial de uma descoberta. Conforme a pressão do reservatório diminui e a produção natural entra em declínio, as decisões operacionais ganham ainda mais peso.
Nesse estágio, a viabilidade do campo depende do conhecimento geológico, da manutenção dos equipamentos e do controle dos custos. Também exige capacidade para executar intervenções e selecionar investimentos com retorno compatível.
Um relatório técnico da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis reúne alternativas, práticas e desafios relacionados ao aumento da longevidade e do fator de recuperação de campos terrestres e marítimos.
Os participantes do painel apresentaram experiências acumuladas em suas respectivas operações. Segundo a discussão, ainda existem oportunidades em campos maduros que podem passar despercebidas dentro de estruturas empresariais maiores.
A proposta vai além de produzir o volume remanescente. As empresas buscam elevar o fator de recuperação e aproveitar melhor plataformas, poços, dutos e outros sistemas já instalados.
Brava Energia aposta em nova etapa de produção no Campo de Atlanta
Entre os participantes estava Carlos Travassos, diretor de Operações Offshore da Brava Energia. O executivo soma 39 anos de experiência na indústria de petróleo e gás.
Antes de chegar à Brava, Travassos construiu uma longa trajetória na Petrobras. Ele trabalhou com águas profundas, sistemas de produção, engenharia, tecnologia e inovação.
Na Brava Energia, o executivo atua diretamente na estratégia operacional dos ativos offshore. A companhia faz parte de uma geração de produtores independentes que assumiu campos e passou a desenvolver projetos com estruturas diferentes das grandes empresas integradas.
O Campo de Atlanta, localizado na Bacia de Santos, ilustra essa estratégia. O ativo recebeu o primeiro sistema de produção em águas profundas desenvolvido desde a fase inicial por uma empresa independente brasileira.
A Offshore Technology Conference concedeu à Brava Energia o Distinguished Achievement Award for Companies de 2026 pelo desenvolvimento do bloco BS-4 e do Campo de Atlanta.
Segundo a organização da OTC, Atlanta fica a cerca de 185 quilômetros da costa brasileira. O campo produz petróleo pesado em uma lâmina d’água superior a 1.500 metros e apresenta desafios relacionados à viscosidade do óleo e às características do reservatório.
Até abril, o Sistema Definitivo de Atlanta havia superado a marca de 11 milhões de barris produzidos. Ao incluir a produção do sistema piloto, o volume acumulado se aproximava de 45 milhões de barris.
Esses números também aparecem em um balanço divulgado pela própria Brava Energia sobre o projeto Atlanta. A companhia informou ainda que o sistema definitivo entrou em produção no final de 2024.
Atlanta alcançou um recorde diário de 45,5 mil barris de petróleo em 2025. Agora, a Brava prepara uma nova campanha de perfuração, com dois poços previstos para a próxima fase de desenvolvimento.
A empresa informou, ao apresentar seus resultados operacionais e financeiros de 2025, que iniciou investimentos em uma campanha entre 2026 e 2027. O planejamento contempla dois novos poços em Atlanta e outros dois em Papa-Terra.
Os números mostram como um ativo já conhecido pode receber novas etapas de investimento. Para isso, a operadora precisa combinar informações do reservatório, desempenho dos poços e capacidade da infraestrutura existente.
Eficiência define se o petróleo remanescente será recuperável
O debate na ROG.e 2026 mostrou que a eficiência deixou de ser tratada somente como uma ferramenta de redução de despesas.
Nos campos maduros, ela passou a integrar a própria estratégia de desenvolvimento. Cada decisão pode influenciar o volume recuperado e o tempo durante o qual a operação permanecerá economicamente sustentável.
Esse trabalho envolve revisar projetos antigos, reavaliar dados dos reservatórios e localizar pontos de perda de produção. Também inclui intervenções em poços, manutenção de equipamentos e incorporação de tecnologias.
Uma oportunidade tecnicamente possível, porém cara, pode não avançar. Por outro lado, mudanças operacionais ou novas soluções podem reduzir o custo e tornar o projeto viável.
As empresas independentes procuram atuar justamente nessa diferença. Estruturas empresariais mais focadas podem acelerar decisões, adaptar processos e concentrar recursos em intervenções compatíveis com a realidade de cada campo.
Essa abordagem ajuda a estender a vida útil dos ativos. Além disso, aumenta o aproveitamento de instalações que já demandaram investimentos elevados para serem construídas.
PRIO, Karoon e Trident levam experiências distintas ao debate
Além de Carlos Travassos, participaram do painel Jean Carlos Calvi, diretor de Operações da PRIO; Marco Brummelhuis, vice-presidente executivo e diretor nacional da Karoon Energy; e Sergio Siqueira, gerente financeiro da Trident Energy.
Os cargos dos participantes constam na agenda oficial do congresso da ROG.e, que colocou representantes das quatro empresas no mesmo painel sobre operação de campos maduros.
As companhias operam em contextos diferentes, mas enfrentam questões semelhantes. Entre elas estão o declínio natural da produção, a necessidade de controlar despesas e a busca por volumes adicionais.
Durante o encontro, os executivos discutiram as lições acumuladas na gestão desses ativos. O conhecimento técnico adquirido durante a operação aparece como um dos elementos centrais para encontrar novas oportunidades.
Quanto mais informações a empresa reúne sobre o comportamento do campo, maior pode ser sua capacidade de selecionar intervenções. Esse histórico ajuda a evitar investimentos pouco eficientes e direciona recursos para projetos com melhores perspectivas.
O modelo também exige integração entre áreas técnicas e operacionais. Reservatórios, engenharia, manutenção e produção precisam trabalhar com objetivos alinhados para preservar a segurança e ampliar a recuperação.
Campos maduros sustentam empregos e uma ampla cadeia de fornecedores
A discussão ganha relevância diante da dimensão da infraestrutura de petróleo e gás instalada no Brasil.
O amadurecimento de um campo não leva automaticamente ao encerramento da produção. Quando ainda existem recursos recuperáveis, novas estratégias podem adiar o descomissionamento e prolongar a atividade.
Em março de 2026, a ANP informou que prorrogou os contratos de 34 campos de petróleo e gás. Entre os 45 planos de desenvolvimento aprovados total ou parcialmente em 2025, 13 envolveram campos maduros com prorrogação contratual e redução de royalties sobre a produção incremental.
Segundo a agência, as extensões buscam aumentar a atratividade do setor, prolongar a vida útil dos campos e maximizar os fatores de recuperação.
A continuidade operacional movimenta empresas de engenharia, manutenção e serviços especializados. Também mantém a demanda por equipamentos, embarcações de apoio, logística e trabalhadores qualificados.
A própria ANP destacou, durante um encontro com a Associação Brasileira dos Produtores Independentes de Petróleo e Gás, que produtores independentes mantêm campos maduros em operação, preservam o escoamento da produção e geram empregos.
Para as companhias independentes, esses ativos oferecem oportunidades porque exigem modelos de gestão especializados. Decisões rápidas e intervenções direcionadas podem transformar volumes remanescentes em projetos economicamente possíveis.
Essa estratégia, contudo, depende do comportamento de cada reservatório. Nem todo campo oferece as mesmas condições técnicas, operacionais ou financeiras para receber um novo ciclo de investimentos.
O debate promovido na ROG.e mostrou que Brava Energia, PRIO, Karoon Energy e Trident Energy apostam no conhecimento detalhado dos ativos para localizar oportunidades e prolongar sua produção.
ROG.e 2026 discute o futuro da indústria brasileira de energia
O painel integra a programação da ROG.e 2026, realizada entre 21 e 24 de setembro, no Riocentro, no Rio de Janeiro.
Durante os quatro dias de evento, executivos, autoridades, operadores e fornecedores discutem temas ligados à indústria de energia. A programação inclui novas fronteiras exploratórias, produção offshore, gás natural, cadeia de suprimentos e inteligência artificial.
Novas tecnologias e transição energética também fazem parte dos debates.
O Click Petróleo e Gás acompanha a ROG.e 2026 diretamente do Riocentro, com entrevistas, análises e informações apresentadas por empresas e lideranças da indústria brasileira e internacional.
Na sua avaliação, o Brasil deveria ampliar os incentivos para prolongar a produção de campos maduros e aproveitar melhor a infraestrutura petrolífera já instalada?
