Ao impor tarifas de até 50% e chamar a economia indiana de “morta”, Donald Trump abriu espaço para que a Índia se aproxime da China e dos BRICS, isolando os EUA na Ásia.
Segundo o analista Cyrus Janssen, a decisão de Donald Trump de elevar tarifas contra a Índia representou um erro estratégico que pode custar caro aos Estados Unidos. O país sul-asiático, considerado a economia que mais cresce no mundo, era visto como peça-chave no equilíbrio geopolítico contra Pequim. Mas, diante das sanções, a Índia se aproxima da China e dos BRICS, fortalecendo ainda mais o bloco que reúne economias emergentes e enfraquecendo a influência americana na região.
Para Nova Délhi, a guinada não é apenas uma reação imediata às tarifas. Trata-se de uma escolha estratégica para reduzir dependência dos EUA e ampliar alianças no comércio, na energia e na segurança.
Como Trump perdeu a Índia
Ao aplicar tarifas de até 50% sobre produtos indianos, Trump rompeu com décadas de aproximação entre Washington e Nova Délhi. Além da taxação, o ex-presidente chegou a declarar que a economia indiana estava “morta” e que os EUA “faziam pouco negócio” com o país — afirmações que desconsideram o fato de a Índia ter crescido mais de 13 vezes em PIB desde 1991 e de exportar bilhões em medicamentos, tecnologia e manufaturados para os EUA.
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Esse movimento é visto por especialistas como um presente para Pequim e Moscou, que rapidamente ampliaram a cooperação com o governo de Narendra Modi. A Índia passou a intensificar negociações com a China e reafirmou sua “parceria estratégica privilegiada” com a Rússia, inclusive no setor energético.
A resposta de Modi: diplomacia e aproximação com os BRICS
O primeiro-ministro Narendra Modi reagiu de forma calculada. Em vez de ceder às pressões de Washington, agendou sua primeira visita à China em sete anos e reforçou publicamente os laços com Vladimir Putin. Em declaração oficial, chamou o líder russo de “amigo” e destacou a intenção de ampliar acordos bilaterais.
Essa guinada mostra que, em vez de enfraquecer o BRICS, Trump acabou reforçando o bloco. Para Nova Délhi, estar ao lado da China e da Rússia garante mais margem de manobra em negociações comerciais e energéticas, além de reforçar sua posição como potência emergente no Sul Global.
Impactos para os EUA e para a Ásia
A consequência imediata é que a Índia se aproxima da China e dos BRICS justamente no momento em que os EUA tentavam conter a expansão de Pequim no Indo-Pacífico. Com a perda de um aliado estratégico, Washington perde influência em temas cruciais como rotas marítimas, tecnologia e energia.
Além disso, setores americanos dependentes da Índia, como o farmacêutico — já que 40% dos genéricos consumidos nos EUA vêm de lá — podem enfrentar custos ainda maiores com a política tarifária. Na prática, o impacto recai sobre a população americana, enquanto o espaço deixado é ocupado por China e Rússia.
Uma virada geopolítica de longo prazo
A leitura de analistas é que Trump acelerou a multipolaridade ao forçar a Índia a buscar alternativas ao sistema dominado pelo dólar e pelas instituições ocidentais. Para Nova Délhi, não se trata apenas de comércio, mas de reposicionar o país como um ator central entre as maiores economias do século XXI.
Como destaca Cyrus Janssen, a jogada de Trump pode ser lembrada como uma das maiores falhas de política externa dos EUA, comparável à perda de outros aliados estratégicos. A Índia não é apenas um mercado — é um pilar do futuro equilíbrio de poder na Ásia.
O cenário está claro: a Índia se aproxima da China e dos BRICS, e os EUA enfrentam isolamento crescente na Ásia. A estratégia de Trump, baseada em pressão econômica, abriu espaço para uma reconfiguração histórica das alianças globais.
E você, acredita que os EUA perderam definitivamente a Índia como aliado? Ou ainda há chance de reaproximação? Deixe sua opinião nos comentários — queremos ouvir sua visão sobre essa mudança geopolítica.