Descoberto no sítio de Wangzhuang, no interior da província de Henan, o sepulcro de 5000 anos impressiona pelo tamanho, pelos 350 artefatos de luxo e pelos misteriosos maxilares de porco que indicam riqueza, sugerindo que ali repousou (ou deveria repousar) um dos primeiros monarcas da Ásia Oriental.
O túmulo mede cerca de 4,5 m de comprimento por 3,6 m de largura, dimensões excepcionais para o período Neolítico chinês e as primeiras pistas de que o ocupante era um líder de alto prestígio.
Dentro dele, arqueólogos catalogaram um caixão duplo em madeira cujo espaço interno atinge impressionantes 17 m², solução rara para proteger os restos mortais de figuras de elite.
A equipe recuperou aproximadamente 350 objetos funerários: quase 200 adornos de jade, ferramentas de osso, mandíbulas de porco, recipientes cerâmicos e peças de pedra polida.
Os maxilares suínos são o osso animal mais frequente; para os especialistas, grandes lotes de mandíbulas eram marcadores de poder econômico no Dawenkou.
-
Carbono-14: O relógio natural que revela a história da vida
-
Smart TV está espionando? Descubra o que é ACR e como desativá-lo para manter sua privacidade
-
Estudantes inventaram um sistema de iluminação natural passiva que captura e redireciona a luz solar para ambientes internos sem usar eletricidade
-
Embrapa realiza estudo para transformar agave, planta usada na produção da tequila, em etanol
Entre os achados de jade há contas finamente lapidadas que, em tantas quantidades, reforçam a ideia de opulência real e comércio de longa distância já consolidado.
Jarras de boca estreita e dentes de cervo-d’água apontam ritos locais de fertilidade e banquetes, sugerindo que práticas cerimoniais reforçavam o status do monarca.
Wangzhuang: vestígios de uma capital perdida na planície do Rio Amarelo
Os 45 túmulos descobertos formam um conjunto funerário denso que, segundo o professor Zhu Guanghua, descaracteriza Wangzhuang como simples aldeia e a coloca como provável capital de um reino pré-histórico.
A Cultura Dawenkou, ativa entre 4000 a.C. e 2600 a.C., já era famosa por cerâmica avançada; agora ganha um centro político robusto no coração de Henan.
Estruturas e objetos vindos do leste, do centro e até da bacia do Yangtzé mostram redes de intercâmbio que ligavam diversas regiões chinesas há cinco milênios.
Para Li Zinwei, do Instituto de História Antiga, essa diversidade confirma o “caráter plural” da civilização chinesa nascente e documenta as primeiras fusões culturais do país.
Cerâmica típica Dawenkou convive com ornamentos que remetem a povos distantes, demonstrando que rotas de jade, ossos e comida atravessavam montanhas e rios muito antes das dinastias clássicas.
A riqueza de Wangzhuang também se traduz em hierarquia clara: quanto maior a câmara mortuária, mais abundantes e valiosos são os artefatos, evidência direta de estratos sociais bem definidos.
Rituais, vandalismo e poder: o que os artefatos revelam sobre a sociedade Dawenkou
Restaram apenas ossos dos dedos dos pés do aparente rei; saqueadores ou rivais teriam removido o corpo logo após o sepultamento em gesto de desafio político.
Muitas peças cerimoniais foram deliberadamente quebradas dentro da tumba, sinal de violência simbólica capaz de enfraquecer a legitimidade do governante morto.
O acúmulo de mandíbulas de porco indica banquetes tão luxuosos quanto os das eras imperiais, confirmando que práticas de ostentação alimentícia têm raízes profundas na China antiga.
Ferramentas de osso e lâminas de pedra revelam divisão de trabalho avançada, com artesãos especializados responsáveis pela produção em larga escala de bens de prestígio.
Pequenos jarros com boca fina, marca registrada Dawenkou, sugerem armazenamento de bebidas fermentadas usadas em ritos de passagem e alianças políticas regionais.
Junto às relíquias locais aparecem ornamentos vindos do Yangtzé e planícies costeiras, provando que a autoridade de Wangzhuang dependia tanto de poder militar quanto de redes comerciais e alianças inter-regionais.