Uma história de sobrevivência, coragem e tecnologia que mobilizou equipes de resgate de vários países e entrou para a história como uma das maiores operações de salvamento já realizadas.
Em 5 de agosto de 2010, o Chile parou. Uma explosão na mina San José, na região de Copiapó, soterrou 33 trabalhadores a 700 metros de profundidade. O que parecia ser mais um trágico acidente de mineração se transformou em uma das histórias mais emocionantes já contadas, com um final quase milagroso: os mineiros chilenos sobreviveram 69 dias sob a terra até serem resgatados em uma operação inédita que prendeu a atenção do planeta.
O acidente que mudou a história da mineração no Chile
A mina San José, uma jazida de cobre e ouro no deserto do Atacama, era considerada arriscada. Relatórios anteriores já apontavam problemas de segurança, mas a operação continuava. Na tarde de 5 de agosto, um desmoronamento maciço bloqueou o acesso principal da mina.
Nos primeiros dias, o cenário era desolador: ninguém sabia se os 33 mineiros estavam vivos. As tentativas de comunicação falhavam, e o risco de novos desabamentos complicava o trabalho das equipes de resgate.
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A descoberta que virou manchete mundial
Foram 17 dias de angústia até que uma sonda perfurou a rocha e trouxe uma resposta: um bilhete preso à broca, escrito com caneta vermelha, dizia:
“Estamos bien en el refugio los 33” (Estamos bem no refúgio os 33).
Essa mensagem simples, em um pedaço de papel amassado, correu o mundo. Era a confirmação de que os mineiros estavam vivos — e desencadeou uma das maiores operações de resgate da história.
69 dias de sobrevivência no subsolo
Presos a 700 metros, os mineiros chilenos enfrentaram um desafio sobre-humano. Eles se abrigaram no “refúgio”, uma pequena galeria de emergência com poucos recursos.
- Comida: nos primeiros dias, eles dividiram pequenas porções de atum, biscoitos e leite. A ração era tão controlada que cada homem recebia o equivalente a duas colheres de sopa de atum a cada 48 horas.
- Água: a única fonte era a água que escorria dos equipamentos e das paredes da mina.
- Temperatura: variava entre 30 °C e 35 °C, com umidade alta e falta de ventilação adequada.
Quando a comunicação foi restabelecida, tubos estreitos começaram a enviar comida, remédios, roupas limpas e mensagens das famílias. A equipe médica em superfície elaborou uma dieta para evitar problemas de saúde — tudo sob um monitoramento psicológico intenso, já que a claustrofobia e o desespero eram inimigos constantes.
A megaoperação que envolveu o mundo inteiro
O governo chileno montou uma força-tarefa inédita, envolvendo militares, engenheiros e especialistas de vários países, incluindo Estados Unidos, Canadá e até a NASA, que ajudou com protocolos de saúde e confinamento.
Três planos de perfuração foram elaborados:
- Plano A: lento, usava uma perfuradora tradicional de mineração.
- Plano B: usava uma máquina mais moderna, chamada Schramm T130, e acabou sendo a escolhida.
- Plano C: uma terceira perfuração de segurança.
Foram semanas perfurando a rocha até abrir um túnel suficientemente largo para trazer os homens de volta.
A cápsula Fênix: o “elevador da esperança”
O resgate exigiu a criação de uma cápsula especial, a Fênix. Com apenas 53 cm de diâmetro e espaço para um homem de cada vez, ela desceria pelo túnel e subiria, em viagens individuais de quase 20 minutos.
Cada mineiro usaria uma roupa especial, capacete com câmera e máscara de oxigênio. A cápsula tinha comunicação direta com a superfície e sistemas de segurança para evitar que ficasse presa.
O resgate que parou o planeta
Na noite de 12 de outubro de 2010, a cápsula Fênix começou sua descida. O primeiro a sair foi Florencio Ávalos, que chegou à superfície após uma subida tensa de 15 minutos. A cena foi transmitida ao vivo para milhões de pessoas.
Um a um, os 33 mineiros chilenos emergiram, abraçando familiares, autoridades e equipes de resgate. O último a sair foi Luis Urzúa, o líder do grupo, chamado de “o capitão”, que manteve a disciplina e a moral durante os 69 dias de confinamento.
Um final feliz – e as marcas deixadas pela tragédia
O resgate terminou no dia 13 de outubro, após 22 horas de operação contínua. Nenhum mineiro morreu — algo inédito em acidentes desse porte. O mundo celebrou a história como um milagre moderno, mas também levantou questões sobre segurança em minas, responsabilidades empresariais e protocolos de emergência.
Após o resgate, os mineiros viajaram, deram entrevistas, inspiraram livros, filmes e documentários (como “Os 33”, estrelado por Antonio Banderas). Mas nem todos conseguiram retomar a vida como antes. Muitos sofreram traumas psicológicos, dificuldades financeiras e se viram às voltas com processos jurídicos e contratos de mídia.
O legado dos 33 mineiros
O episódio dos mineiros chilenos deixou marcas na história. A operação tornou-se um modelo de resgate em confinamento extremo, estudado por engenheiros, militares e até por agências espaciais. A mina San José jamais reabriu, mas o evento forçou mudanças em políticas de segurança e fiscalização em toda a América Latina.
Mais do que um desastre, a história se transformou em um símbolo de resiliência, cooperação internacional e esperança. O bilhete “Estamos bien en el refugio los 33” continua sendo um dos recados mais famosos já escritos — um lembrete de que, mesmo nas situações mais impossíveis, a sobrevivência é possível.