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Nova lei proíbe o consumo de carne de cachorro e agora o desafio será: qual o futuro de cerca de 500 mil cães na Coreia do Sul?

Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 26/06/2025 às 14:40
A nova lei que proíbe a carne de cachorro na Coreia do Sul levanta um dilema: qual será o destino de 500 mil cães até 2027?
A nova lei que proíbe a carne de cachorro na Coreia do Sul levanta um dilema: qual será o destino de 500 mil cães até 2027?
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A Coreia do Sul acelera a implementação da proibição da carne de cachorro, mas enfrenta um impasse com o destino de meio milhão de cães criados em fazendas para consumo, pressionando governo, criadores e abrigos.

A Coreia do Sul está em contagem regressiva para uma mudança histórica: até fevereiro de 2027, estará completamente proibida a criação, o abate, a venda e o consumo de carne de cachorro em todo o país.

A nova lei, que impõe penas de até três anos de prisão ou multa de até 30 milhões de wons a quem desrespeitar as normas, marca o fim de uma prática secular — e abre um dilema urgente: o que fazer com os cerca de 500 mil cães ainda criados em fazendas para esse fim?

Enquanto ativistas celebram o avanço na proteção animal, o governo e os criadores enfrentam uma corrida contra o tempo para encontrar destinos viáveis aos animais.

Muitos dos criadores, especialmente os mais velhos, relatam dificuldades para vender ou doar os cães, geralmente de raças grandes e pouco procuradas.

A rede de abrigos já opera acima da capacidade, e cresce o temor de abandono em massa, mercado clandestino e até eutanásias não autorizadas.

Proibição da carne de cachorro e mudança cultural

O Parlamento sul-coreano aprovou a medida em janeiro de 2024, após décadas de pressão interna e internacional.

Segundo autoridades, a decisão atende a uma mudança clara no perfil da população: uma pesquisa oficial mostrou que apenas 7% dos sul-coreanos consumiram carne de cachorro em 2023 — número bem inferior aos 27% registrados em 2015.

Em 2025, 93% dos entrevistados afirmaram não ter intenção de voltar a consumir esse tipo de carne mesmo após o fim do prazo legal.

A prática, historicamente tolerada e mesmo incentivada em algumas regiões, perdeu apoio em meio ao crescimento da adoção de animais de estimação e à popularização de causas ligadas ao bem-estar animal.

Presidentes, celebridades e formadores de opinião passaram a condenar publicamente o consumo, ampliando o debate social.

Impacto econômico da nova lei

Atualmente, 1.156 fazendas criam cães para consumo em território sul-coreano.

Estima-se que 388 mil cães sejam abatidos anualmente para abastecer cerca de 1.666 restaurantes especializados.

Muitos criadores são idosos, com poucos recursos para redirecionar o negócio ou manter os animais sem retorno financeiro.

“Desde o verão passado, não consegui vender nem doar um único cachorro”, afirmou à BBC o produtor Joo Yeong‑bong.

Outro criador, identificado como Chan‑woo, possui mais de 600 cães e diz que não há infraestrutura suficiente para encaminhar todos eles antes do prazo. “Se não abatermos até 2027, seremos presos”, lamenta.

Realocação dos cães e plano de apoio do governo

Para evitar um desastre humanitário e ambiental, o governo anunciou um plano de auxílio que prevê:

6 bilhões de wons por ano (aproximadamente R$ 24 milhões) para reforçar abrigos públicos.

Pagamento de até 600 mil wons por cão (cerca de R$ 2.400) a criadores que encerrarem suas atividades antes do prazo e entregarem os animais ao Estado.

Estímulos para conversão de fazendas, como o cultivo de cogumelos ou hortaliças.

Segundo o Ministério da Agricultura, os cães que forem entregues legalmente passarão à responsabilidade dos governos locais.

A eutanásia em massa, segundo o órgão, “não está nos planos oficiais”.

No entanto, a execução prática dessas medidas enfrenta sérias limitações: falta espaço físico, recursos veterinários e mão de obra capacitada.

Adoções internacionais e papel das ONGs

Algumas ONGs têm buscado apoio no exterior.

A Humane World for Animals Korea (Hwak), por exemplo, resgatou 200 cães em Asan e os enviou para adoção no Canadá e nos EUA.

Em 2025, uma nova missão salvou 67 cães de uma fazenda em Cheongju, muitos deles feridos, e os levou para reabilitação em Maryland, nos Estados Unidos.

Mesmo com esses esforços, o número de cães resgatados é ínfimo diante do total estimado.

Organizações locais apontam que a maioria dos animais permanece sem destino definido, e alertam para a possibilidade de aumento do abandono e de práticas ilegais.

Da tradição à proteção animal

Durante séculos, a carne de cachorro foi vista como parte da cultura alimentar sul-coreana, especialmente em épocas de calor, quando se acreditava que o prato fortalecia o corpo.

Mas esse paradigma mudou.

Com o crescimento da classe média, o aumento das adoções de pets e a influência ocidental, a visão sobre os cães migrou do prato para o sofá da sala.

Hoje, o país acompanha uma tendência global.

A prática também é alvo de restrições em partes da China, Índia e Indonésia.

A Coreia do Sul, agora, assume protagonismo ao legislar de forma ampla e com data definida, diferentemente de países onde o consumo ainda é apenas desencorajado.

Desafios práticos até 2027

Com o tempo correndo, a eficácia da nova lei dependerá da rapidez e da qualidade das ações.

Para evitar um colapso social e sanitário, o governo terá de:

  • Expandir rapidamente a rede de abrigos.
  • Estimular a adoção nacional e internacional em larga escala.
  • Oferecer suporte técnico e financeiro realista aos criadores.
  • Fiscalizar com rigor as rotas clandestinas.

Sem essas medidas, o objetivo de proteger os cães pode gerar um efeito inverso: sofrimento prolongado, abandono e morte dos próprios animais que a lei pretende salvar.

Você acredita que os abrigos e os incentivos serão suficientes para salvar os 500 mil cães da Coreia do Sul até 2027?

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Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

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