A Coreia do Sul acelera a implementação da proibição da carne de cachorro, mas enfrenta um impasse com o destino de meio milhão de cães criados em fazendas para consumo, pressionando governo, criadores e abrigos.
A Coreia do Sul está em contagem regressiva para uma mudança histórica: até fevereiro de 2027, estará completamente proibida a criação, o abate, a venda e o consumo de carne de cachorro em todo o país.
A nova lei, que impõe penas de até três anos de prisão ou multa de até 30 milhões de wons a quem desrespeitar as normas, marca o fim de uma prática secular — e abre um dilema urgente: o que fazer com os cerca de 500 mil cães ainda criados em fazendas para esse fim?
Enquanto ativistas celebram o avanço na proteção animal, o governo e os criadores enfrentam uma corrida contra o tempo para encontrar destinos viáveis aos animais.
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Muitos dos criadores, especialmente os mais velhos, relatam dificuldades para vender ou doar os cães, geralmente de raças grandes e pouco procuradas.
A rede de abrigos já opera acima da capacidade, e cresce o temor de abandono em massa, mercado clandestino e até eutanásias não autorizadas.
Proibição da carne de cachorro e mudança cultural
O Parlamento sul-coreano aprovou a medida em janeiro de 2024, após décadas de pressão interna e internacional.
Segundo autoridades, a decisão atende a uma mudança clara no perfil da população: uma pesquisa oficial mostrou que apenas 7% dos sul-coreanos consumiram carne de cachorro em 2023 — número bem inferior aos 27% registrados em 2015.
Em 2025, 93% dos entrevistados afirmaram não ter intenção de voltar a consumir esse tipo de carne mesmo após o fim do prazo legal.
A prática, historicamente tolerada e mesmo incentivada em algumas regiões, perdeu apoio em meio ao crescimento da adoção de animais de estimação e à popularização de causas ligadas ao bem-estar animal.
Presidentes, celebridades e formadores de opinião passaram a condenar publicamente o consumo, ampliando o debate social.
Impacto econômico da nova lei
Atualmente, 1.156 fazendas criam cães para consumo em território sul-coreano.
Estima-se que 388 mil cães sejam abatidos anualmente para abastecer cerca de 1.666 restaurantes especializados.
Muitos criadores são idosos, com poucos recursos para redirecionar o negócio ou manter os animais sem retorno financeiro.
“Desde o verão passado, não consegui vender nem doar um único cachorro”, afirmou à BBC o produtor Joo Yeong‑bong.
Outro criador, identificado como Chan‑woo, possui mais de 600 cães e diz que não há infraestrutura suficiente para encaminhar todos eles antes do prazo. “Se não abatermos até 2027, seremos presos”, lamenta.
Realocação dos cães e plano de apoio do governo
Para evitar um desastre humanitário e ambiental, o governo anunciou um plano de auxílio que prevê:
6 bilhões de wons por ano (aproximadamente R$ 24 milhões) para reforçar abrigos públicos.
Pagamento de até 600 mil wons por cão (cerca de R$ 2.400) a criadores que encerrarem suas atividades antes do prazo e entregarem os animais ao Estado.
Estímulos para conversão de fazendas, como o cultivo de cogumelos ou hortaliças.
Segundo o Ministério da Agricultura, os cães que forem entregues legalmente passarão à responsabilidade dos governos locais.
A eutanásia em massa, segundo o órgão, “não está nos planos oficiais”.
No entanto, a execução prática dessas medidas enfrenta sérias limitações: falta espaço físico, recursos veterinários e mão de obra capacitada.
Adoções internacionais e papel das ONGs
Algumas ONGs têm buscado apoio no exterior.
A Humane World for Animals Korea (Hwak), por exemplo, resgatou 200 cães em Asan e os enviou para adoção no Canadá e nos EUA.
Em 2025, uma nova missão salvou 67 cães de uma fazenda em Cheongju, muitos deles feridos, e os levou para reabilitação em Maryland, nos Estados Unidos.
Mesmo com esses esforços, o número de cães resgatados é ínfimo diante do total estimado.
Organizações locais apontam que a maioria dos animais permanece sem destino definido, e alertam para a possibilidade de aumento do abandono e de práticas ilegais.
Da tradição à proteção animal
Durante séculos, a carne de cachorro foi vista como parte da cultura alimentar sul-coreana, especialmente em épocas de calor, quando se acreditava que o prato fortalecia o corpo.
Mas esse paradigma mudou.
Com o crescimento da classe média, o aumento das adoções de pets e a influência ocidental, a visão sobre os cães migrou do prato para o sofá da sala.
Hoje, o país acompanha uma tendência global.
A prática também é alvo de restrições em partes da China, Índia e Indonésia.
A Coreia do Sul, agora, assume protagonismo ao legislar de forma ampla e com data definida, diferentemente de países onde o consumo ainda é apenas desencorajado.
Desafios práticos até 2027
Com o tempo correndo, a eficácia da nova lei dependerá da rapidez e da qualidade das ações.
Para evitar um colapso social e sanitário, o governo terá de:
- Expandir rapidamente a rede de abrigos.
- Estimular a adoção nacional e internacional em larga escala.
- Oferecer suporte técnico e financeiro realista aos criadores.
- Fiscalizar com rigor as rotas clandestinas.
Sem essas medidas, o objetivo de proteger os cães pode gerar um efeito inverso: sofrimento prolongado, abandono e morte dos próprios animais que a lei pretende salvar.
Você acredita que os abrigos e os incentivos serão suficientes para salvar os 500 mil cães da Coreia do Sul até 2027?