Descubra a história do South China Mall, o maior shopping do mundo que virou símbolo do abandono de centros comerciais na China. De megaprojeto bilionário a tentativa de reinvenção urbana.
Em 2005, a China surpreendeu o mundo ao inaugurar o South China Mall, na cidade de Dongguan, província de Guangdong. O ambicioso projeto foi concebido com um único objetivo: transformar o espaço no maior shopping do mundo.
A ideia era unir consumo, lazer e turismo em um só complexo, com mais de mil lojas, zonas temáticas internacionais, parques de diversão, hotéis e áreas gastronômicas. No papel, parecia o novo epicentro comercial da Ásia.
Mas o que era para ser um ícone da infraestrutura energética e da nova economia chinesa rapidamente se tornou símbolo do abandono de centros comerciais. Por quase duas décadas, o South China Mall foi chamado pela imprensa internacional de “shopping fantasma”, e sua gigantesca estrutura permaneceu praticamente deserta, acumulando prejuízos e revelando falhas profundas na lógica de crescimento acelerado e sem planejamento do país.
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Este artigo traça a trajetória do South China Mall, analisa as causas de seu colapso, seu impacto na indústria de shoppings e as tentativas recentes de reabilitar sua imagem, contextualizando o caso dentro do fenômeno global de crise dos grandes centros comerciais.
O sonho do maior shopping do mundo
O South China Mall foi concebido por Hu Guirong, ex-agricultor que havia acumulado fortuna no setor imobiliário e desejava transformar Dongguan em um polo turístico e comercial de escala internacional. A cidade, com cerca de 10 milhões de habitantes, era conhecida por sua indústria de manufatura — mas carecia de atrativos culturais e de lazer.
Com uma área construída de 890 mil m² e área bruta locável (ABL) de mais de 659 mil m², o shopping superava em tamanho todos os seus concorrentes globais, incluindo o Dubai Mall (EUA) e o Mall of America (Emirados Árabes Unidos). Estava previsto para abrigar mais de 2.300 lojas, além de:
- Roda-gigante de 25 metros
- Canal com gôndolas inspirado em Veneza
- Réplica do Arco do Triunfo de Paris
- Hotel cinco estrelas
- Cinemas IMAX
- Parques indoor e áreas temáticas com arquitetura europeia
O projeto recebeu mais de US$ 1 bilhão em investimentos, grande parte financiada por bancos estatais chineses. O shopping foi promovido como uma “cidade de compras global”, voltada tanto para moradores locais quanto para turistas estrangeiros.
O colapso: quando o maior shopping virou um ‘elefante branco’
Apesar da inauguração com pompa, o maior shopping do mundo jamais atingiu seu potencial. A taxa de ocupação não passou de 10% nos primeiros anos. Lojas fecharam antes mesmo de completar um ano de operação.
A imprensa chinesa praticamente silenciou sobre o fracasso, mas a mídia internacional — como CNN, Bloomberg e South China Morning Post — passou a se referir ao local como o “maior shopping fantasma da Terra”.
As imagens eram emblemáticas: corredores vazios, escadas rolantes desligadas, fachadas cobertas por tapumes e um silêncio absoluto em meio à maior estrutura comercial já construída.
Principais causas apontadas por analistas:
- Localização mal planejada: Dongguan não era um destino turístico e não possuía infraestrutura hoteleira nem aeroportuária próxima.
- Acesso difícil: até 2015, não havia conexão direta com o metrô ou rodovias expressas.
- Baixo poder de compra local: a classe trabalhadora de Dongguan não tinha renda suficiente para sustentar um shopping de luxo.
- Erro de posicionamento: a proposta era elitizada demais para a realidade regional.
- Excesso de otimismo do mercado imobiliário chinês, que acreditava que “se você construir, eles virão” — o que claramente não aconteceu.
A crise dos shoppings na China
O caso do South China Mall é emblemático dentro de um fenômeno mais amplo de expansão descontrolada de centros comerciais na China. Entre 2005 e 2015, foram construídos mais de 4.000 shoppings no país, muitos deles em cidades de médio porte, sem análise de viabilidade real.
Segundo dados da China Chain Store & Franchise Association (CCFA), mais de 30% dos centros comerciais chineses construídos nessa época operaram com níveis críticos de vacância por anos. A expressão “abandono de centros comerciais” tornou-se comum em relatórios do setor.
Essa bolha de concreto foi alimentada por crédito fácil, metas de crescimento regional, e incentivos políticos para desenvolver áreas urbanas mesmo sem demanda de consumo compatível.
O South China Mall passou a ser estudado em universidades e por urbanistas como símbolo máximo de urbanização especulativa — onde a infraestrutura vem antes da função social.
Após anos de abandono, o governo local e a empresa gestora South China Mall Holdings decidiram reverter o quadro. A partir de 2015, uma série de reformas estruturais, incentivos fiscais e campanhas promocionais tentaram recuperar o fluxo de consumidores.
Principais medidas tomadas:
- Construção de uma estação de metrô com conexão direta ao shopping
- Redefinição do mix de lojas, com foco em marcas populares e lojas âncora locais
- Criação de espaços multifuncionais como universidades, clínicas, centros culturais
- Realização de eventos de grande escala: festivais musicais, feiras estudantis, competições de e-sports
- Implantação de serviços públicos, como cartórios, postos de saúde e atendimento municipal
Até 2023, a taxa de ocupação havia subido para cerca de 60%, segundo relatórios internos da gestora. No entanto, o movimento médio diário ainda era considerado fraco para o porte do empreendimento.
O impacto econômico e social
O fracasso inicial do South China Mall teve efeitos duradouros. Empreendedores perderam milhões, milhares de empregos deixaram de ser criados e a confiança no setor foi abalada. Bancos estatais sofreram com o não retorno dos financiamentos, e Dongguan ficou marcada por um símbolo de megalomania econômica.
Sociólogos e economistas usaram o caso como alerta para a necessidade de planejamento urbano e uso racional dos espaços públicos. O conceito de “maior” passou a ser questionado: não basta ser o maior shopping do mundo — é preciso ser o mais funcional, o mais acessível, o mais conectado à realidade da população.
Comparação com outros casos globais
O abandono de centros comerciais não é exclusivo da China. Nos Estados Unidos, o fenômeno dos dead malls — shoppings abandonados por conta da ascensão do e-commerce — já é documentado desde os anos 2000. No Brasil, projetos como o Shopping Gama (DF) e o Shopping Center Leste Aricanduva (SP) também enfrentaram dificuldades após inaugurações grandiosas.
No entanto, nenhum caso possui a escala e visibilidade global do South China Mall, que ainda hoje figura em listas de curiosidades e exemplos de investimentos mal sucedidos.
O novo papel dos shoppings no século XXI
Com a ascensão do comércio eletrônico e a mudança nos hábitos de consumo, os shoppings precisam se reinventar. O South China Mall tenta seguir essa tendência, buscando não ser apenas o maior shopping, mas um centro urbano multifuncional.
Novos projetos preveem:
- Ampliação de coworkings e startups
- Incubadoras de tecnologia em parceria com universidades
- Bibliotecas públicas e centros culturais permanentes
- Áreas verdes, praças de convivência e mobilidade sustentável
O foco agora está na experiência do consumidor, e não apenas na compra. Em vez de competir com plataformas online, o shopping quer ser um lugar onde as pessoas vão para se encontrar, estudar, cuidar da saúde ou participar de eventos — e eventualmente comprar algo.
O South China Mall foi, por muitos anos, símbolo do que deu errado na urbanização e no consumo de massa na China. Pensado para ser o maior shopping do mundo, acabou se tornando o mais emblemático caso de abandono de centros comerciais da história recente.
Contudo, sua história não termina no fracasso. Aos poucos, o South China Mall tenta se reinventar, aprendendo com os erros do passado e se adaptando ao presente. O megashopping, que um dia foi sinônimo de desperdício, tenta agora ser uma referência de reconstrução e ressignificação dos espaços urbanos.
Se conseguirá ou não, o tempo dirá. Mas o que é certo é que sua trajetória serve como alerta — e inspiração — para todos os que pensam a cidade, o comércio e a sociedade.