Cidade que já foi centro ferroviário nacional vive hoje o abandono dos trilhos, a perda de identidade histórica e promessas de reativação que seguem sem prazo definido, enquanto projetos como o VLT urbano esbarram na burocracia e na incerteza política.
Bauru, no interior de São Paulo, já foi considerado o maior entroncamento ferroviário do Brasil.
A cidade conectava linhas que seguiam para São Paulo, Mato Grosso do Sul e o Porto de Santos, por onde circulavam cargas e passageiros diariamente.
Era o centro logístico das companhias Sorocabana, Noroeste do Brasil e Companhia Paulista.
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Hoje, o cenário é outro: trilhos cobertos por mato, estruturas corroídas e silos vazios ilustram o abandono de uma malha que já simbolizou o progresso.
A degradação se intensificou a partir da década de 1990, com o fechamento de linhas e a perda de investimentos no setor ferroviário.
Atualmente, o transporte por trem praticamente não existe mais na cidade.

Impacto econômico do fim da ferrovia
Em entrevista ao portal G1, Cezira Viotto, técnica administrativa que trabalha desde 1987 no armazém da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), acompanhou essa transformação.
“A ferrovia era muito mais econômica. Seis vagões transportavam cerca de 400 toneladas, enquanto um caminhão carrega, em média, 100. Além disso, não há pedágios, é mais seguro e tem menor impacto nas estradas”, explica.
A mudança para o transporte rodoviário impactou não apenas a economia da região, mas também o meio ambiente, com o aumento da emissão de poluentes, e o custo do frete, que subiu significativamente nos últimos anos.
Memória ferroviária em risco
O historiador Douglas Alves, também ao portal citado, ressalta que a perda vai além da estrutura física. Segundo ele, está em curso o apagamento de uma parte importante da identidade cultural de Bauru.
“A cidade chegou a empregar entre cinco e seis mil trabalhadores nas ferrovias. Isso gerou um saber próprio, uma cultura ferroviária que está desaparecendo com o tempo”, alerta.
Para o especialista, é urgente preservar documentos, imagens, equipamentos e relatos de quem viveu essa história.
Promessas e atrasos na reativação dos trilhos
Mesmo com o cenário atual, ainda há promessas de reativação. A concessionária Rumo informou que, em julho de 2024, iniciaram as obras no ramal Bauru–Panorama, com previsão de conclusão para 2028.
O projeto pretende recuperar a infraestrutura para retomada do transporte de cargas.
No entanto, o cronograma pode ser comprometido por disputas judiciais envolvendo ocupações irregulares em trechos da linha, especialmente em cidades como Marília.

Projeto de VLT em Bauru
Enquanto isso, a Prefeitura de Bauru apresentou um projeto de Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), que prevê a implantação de linhas para transporte público municipal com trens elétricos de superfície.
O plano está em fase de estudo, com discussões envolvendo o governo estadual, mas ainda sem previsão de implementação concreta.
Obstáculos ao futuro ferroviário
Embora as obras tragam esperança, há obstáculos significativos.
O futuro da ferrovia em Bauru depende de uma série de fatores: resolução de disputas judiciais, liberação de áreas ocupadas, articulação entre diferentes esferas de governo e viabilidade financeira.
Além disso, há incertezas quanto à sinergia entre o transporte de cargas e a proposta do VLT urbano, que precisaria operar em harmonia com a malha existente.
Lembranças de quem viveu o auge
Osni Bueno, que trabalha há 50 anos na Ceagesp como conferente, testemunhou o auge e o declínio do setor.
“Pesava caminhões, recebia os vagões, conferia as mercadorias. Hoje, tudo é feito por caminhões. O trem virou história”, lamenta.
Desafios do transporte nacional
O abandono da malha ferroviária de Bauru reflete uma realidade que se espalha pelo Brasil: a perda de um sistema estratégico de transporte que, além de eficiente, era sustentável e seguro.
Com promessas que se arrastam e ações que avançam lentamente, o país corre o risco de enterrar definitivamente um modelo que poderia ser parte da solução para os gargalos logísticos nacionais.
Diante desse cenário, a pergunta que fica é: o Brasil ainda quer — e pode — reconquistar seu lugar nos trilhos?

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