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O cabo elétrico submerso que viaja mais de 700 km sob o mar, carrega gigawatts de energia eólica e conecta países inteiros numa mesma rede continental de alta tensão

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 10/01/2026 às 19:04
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Cabo submarino HVDC com mais de 700 km integra energia eólica do Mar do Norte à Europa, conectando países, reduzindo emissões e reforçando segurança elétrica.

Há duas décadas, energia eólica offshore era vista como aposta cara e experimental. Hoje, parques eólicos gigantes no Mar do Norte, no Báltico e no Atlântico abastecem milhões de pessoas. O que poucos lembram é que nada disso funcionaria sem um protagonista silencioso: os cabos submersos de corrente contínua de alta tensão (HVDC), capazes de transportar energia limpa por centenas de quilômetros com baixas perdas e conectando países que jamais dividiram linhas elétricas terrestres.

700 km sob o mar para transportar o vento

O caso mais emblemático é o North Sea Link, inaugurado entre Noruega e Reino Unido, com 720 km de extensão em pleno fundo marinho. É o cabo submarino HVDC mais longo do mundo atualmente, ligando:

  • Noruega (Hidrelétricas do Sul)
  • Reino Unido (Eólicas offshore do Mar do Norte)

Esse corredor elétrico permite transferir energia conforme a oferta e demanda: quando venta forte na Grã-Bretanha, o excesso abastece a Noruega; quando os ventos cessam, os lagos noruegueses devolvem energia hidrelétrica. É uma espécie de “bateria transnacional natural”, usando reservatórios hidrelétricos.

Gigawatts de vento, gelo e hidrelétricas

Não é só distância: é potência. Hoje os principais cabos HVDC europeus carregam centenas a milhares de megawatts, equivalente a turbinas nucleares inteiras. Alguns exemplos reais:

  • North Sea Link (UK–Noruega): 1.400 MW
  • Viking Link (Dinamarca–Reino Unido): 765 km + 1.400 MW
  • NordLink (Noruega–Alemanha): 623 km + 1.400 MW
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Esses números explicam por que esse sistema virou prioridade continental: 1.400 MW é energia suficiente para alimentar mais de 1,4 milhão de residências, dependendo da região.

Por que cabos submarinos e não linhas aéreas?

A lógica é técnica e geopolítica:

Perdas menores em longas distâncias
A tecnologia HVDC tem perdas inferiores ao AC tradicional, especialmente em trechos acima de 500 km.

Possibilidade de interligar países com frequências diferentes
Noruega, Reino Unido, França, Dinamarca e Alemanha operam em dinâmicas diferentes. A HVDC serve como ponte tecnológica.

Evita conflitos territoriais
Linhas aéreas precisam de desapropriações, acordos ambientais e negociações sociais. Cabos submarinos contornam barreiras políticas e terrestres.

Permite levar energia de onde ela existe para onde ela é necessária
Há locais com muito vento (Mar do Norte) e centros urbanos longe (Paris, Londres, Berlim). O cabo é o meio termo.

A engenharia por trás: converter, retificar, transmitir

O “cabo do vento” só existe por causa dos conversores HVDC. Em cada ponta, grandes estações fazem:

  • Retificação (AC → DC)
  • Transmissão
  • Conversão (DC → AC)
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Essas estações têm prédios inteiros com válvulas, transformadores, filtros e sistemas de resfriamento. Sem elas, seria impossível ligar parques eólicos flutuantes a continentes inteiros.

Integração continental: quando um país vira bateria do outro

Esse modelo trouxe uma nova ordem elétrica na Europa:

  • Noruega funciona como bateria da Europa (hidrelétricas)
  • Dinamarca e Reino Unido exportam vento
  • França exporta energia nuclear
  • Alemanha importa e equilibra picos

O objetivo da UE é claro: criar uma “super-rede europeia” capaz de operar como um único sistema elétrico.

Efeito geopolítico: menos carvão, menos gás, menos dependência

Esses cabos começaram puramente técnicos. Hoje são geopolíticos:

  • Reduzem dependência de gás natural russo
  • Estabilizam preços de eletricidade
  • Aceleram metas de descarbonização
  • Criam redundância contra apagões

Especialistas estimam que a Europa pode ter mais de 50 GW de interconexões HVDC até 2040, apenas no Mar do Norte, suficientes para alimentar dezenas de milhões.

O futuro: cabos continentais, desertos solares e baterias oceânicas

Enquanto a Europa avança no mar, outras regiões observam:

  • China já opera linhas HVDC de 3.000 km em terra firme
  • Austrália–Singapura estuda cabo solar de >4.000 km
  • Marrocos–Reino Unido planeja 3.800 km de HVDC solar

A lógica é sempre a mesma: onde há vento, sol ou água, haverá um cabo.

Uma nova era silenciosa da energia

Da superfície, nada muda. Navios cruzam. Pescadores trabalham. Turistas ignoram. Mas sob o mar, espessas veias de cobre e alumínio carregam energia limpa entre nações como se fossem artérias de um mesmo organismo continental.

Não são torres, não são turbinas e não são baterias, mas sem eles, nenhuma dessas tecnologias funcionaria na escala que o mundo exige.

E é por isso que os cabos submarinos HVDC estão se tornando a infraestrutura invisível mais estratégica do século XXI.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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